Lembra quando as propagandas eram assunto no dia seguinte? Quando um comercial não era apenas um pedágio irritante entre você e o seu vídeo, mas sim uma peça de cultura pop que fazia a gente rir, chorar ou, no mínimo, parar para pensar? Pois é. Em algum momento da última década, trocamos a alma do negócio por planilhas. Ficamos tão obcecados em perseguir o consumidor com cookies, pixels e retargeting que esquecemos do básico: seduzir.
A boa notícia? O pêndulo está voltando. E ele volta com força total montado nas costas dos gigantes do streaming.
Estamos vivendo um momento de virada silenciosa, mas brutal. O modelo de publicidade suportada por anúncios em plataformas como Netflix, Prime Video e Max não é apenas uma nova forma de "comprar mídia". É um ultimato. É a chance de ouro para o mercado publicitário pedir desculpas pela chatice dos últimos anos e voltar a fazer o que sempre fez de melhor: construção de marca, ou para os íntimos, Brand Building.
Vamos conversar francamente sobre como a obsessão pela eficiência quase matou a criatividade e por que a sua marca precisa parar de gritar e começar a contar histórias de novo.
A overdose de performance e a fragmentação da atenção
Imagine que você está em uma festa. De um lado, tem aquela pessoa interessante, que conta histórias envolventes, faz você rir e cria uma conexão genuína. Do outro, tem um sujeito com uma prancheta que te segue pelo salão repetindo "compre isso, compre isso, compre isso" só porque viu que você olhou para o tênis dele.
Nos últimos dez ou quinze anos, a publicidade digital virou o sujeito da prancheta.
A tecnologia nos deu poderes incríveis de segmentação. Conseguimos falar com canhotos que gostam de gatos e moram em bairros da zona sul. Isso é fantástico para a eficiência de vendas diretas, o famoso "fundo de funil". O problema foi o efeito colateral: a fragmentação absoluta.
Ao dividir a audiência em mil pedacinhos, paramos de criar mensagens universais. A publicidade perdeu o "efeito fogueira", aquele momento em que todos estão reunidos ao redor da mesma história. Ficamos viciados em métricas de curto prazo, em cliques, em conversões imediatas. O resultado? Anúncios feios, apressados e, sinceramente, esquecíveis.
Se você trabalha com marketing, sabe do que estou falando. A tirania do ROI imediato fez com que diretores de arte virassem formatadores de banners. Mas o cenário mudou.

O Streaming é o novo horário nobre (e ele não aceita desaforo)
Aqui entra o "pulo do gato". Os serviços de streaming com planos de publicidade já ultrapassaram a marca de 100 milhões de assinantes globais. A Amazon, sozinha, tem projeções que fazem qualquer executivo de TV aberta suar frio.
Mas a diferença não é apenas o tamanho da audiência. É o contexto da audiência.
Quando você está rolando o feed do Instagram ou do TikTok, seu cérebro está em modo de "caça". É rápido, é descartável, é dopamina barata. Um anúncio ali precisa ser um soco no olho em 3 segundos.
Agora, quando você senta no sofá, liga a sua TV de 55 polegadas e dá play em uma série vencedora do Emmy ou em um filme com orçamento de milhões de dólares, seu estado mental é outro. Você está em modo de "apreciação". Você preparou o ambiente. A pipoca está na mão. A expectativa de qualidade é altíssima.
Nesse cenário, rodar aquele anúncio de performance, feito às pressas no Canva com uma seta piscando, é um crime estético. É como servir miojo em um restaurante de três estrelas Michelin. O público sente a dissonância. A rejeição é imediata.
Para jogar nesse novo estádio, as marcas precisam elevar a barra. O anúncio precisa estar à altura do conteúdo que ele interrompe.
A volta da narrativa e do entretenimento
Helen Edwards, uma voz que respeito muito da London Business School, toca num ponto nevrálgico: precisamos voltar a fazer com que as marcas não sejam apenas "vistas", mas "apreciadas".
Houve uma época em que comerciais da Honda ou da Cadbury eram tão aguardados quanto os programas de TV. Por quê? Porque eles respeitavam a inteligência do espectador. Eles entregavam valor cultural. Havia humor, havia drama, havia uma narrativa humana.
O streaming está forçando esse renascimento. Não dá para ser medíocre em 4K.
Isso exige uma mudança de postura nas agências e departamentos de marketing. O profissional de mídia deixa de ser apenas um operador de plataforma que ajusta lances de leilão e volta a precisar de um parceiro criativo forte.
Não é mais sobre "quantas pessoas eu atinjo com 100 reais", mas sim "qual o impacto emocional que eu causo nessas pessoas". É a diferença entre barulho e música. E acredite, no longo prazo, é a música que constrói impérios.
Reequilibrando a carteira: Do fundo para o topo do funil
Se você tem acompanhado meus artigos sobre estratégias de SEO e autoridade digital, sabe que sempre bato na tecla da consistência. Aqui a lógica é a mesma.
As marcas precisam ter a coragem de tirar um pouco do dinheiro da "conversão imediata" e colocar no "amor à longo prazo". Isso é Brand Equity.
É curioso como o mercado desaprendeu isso. Ficamos tão viciados em medir o último clique que esquecemos que, para alguém clicar, essa pessoa precisa, primeiro, confiar em você. E confiança se constrói com consistência, valores claros e, sim, com grandes produções que mostram que sua marca é sólida.
O streaming oferece o palco perfeito para o topo do funil. É ali que você planta a semente. É ali que você diz "Ei, nós existimos e defendemos isso aqui". Quando o consumidor for impactado lá na frente por um anúncio de performance no celular, ele já te conhece. O clique fica mais barato. O ciclo se fecha.
É um ecossistema, não uma competição entre "branding" e "performance". Um não vive sem o outro, mas o branding estava passando fome. Agora, o banquete está servido novamente.
A Geração Z não tem paciência para o seu anúncio chato
Vamos falar de demografia sem ser chatos. O público entre 18 e 34 anos é, historicamente, o mais difícil de capturar. Eles têm detectores de "besteira corporativa" muito bem calibrados. Eles cresceram com ad-blockers.
Para essa galera, a publicidade tradicional é uma intrusa. A única forma de furar esse bloqueio é com criatividade radical.
Se o anúncio for bom, autêntico, tiver uma linguagem visual incrível ou for genuinamente engraçado, ele ganha um "passe livre". Ele deixa de ser uma interrupção e vira conteúdo.
Os planos de streaming com anúncios estão atraindo exatamente essa faixa etária, que muitas vezes prefere economizar na assinatura em troca de ver alguns comerciais. Mas a tolerância deles para repetição e mensagens genéricas é zero.
Se sua marca aparecer três vezes seguidas com o mesmo vídeo sem graça gritando "PROMOÇÃO", você não está ganhando um cliente. Você está criando um hater. A criatividade aqui não é "perfumaria", é condição de sobrevivência. É o preço do ingresso para falar com a nova geração.

Tecnologia e Arte: O casamento que a gente esperava
Agora, não pense que estou sugerindo abandonar os dados e voltar para a era de "chutar" o que funciona. Pelo contrário. Como especialista em IA, vejo aqui o cenário dos sonhos.
A diferença é que agora usamos a tecnologia para potencializar a criatividade, não para substituí-la.
Imagine o poder da Inteligência Artificial aplicada ao streaming. A Netflix e outras plataformas já estão testando modelos onde a IA adapta o anúncio ao contexto do que está sendo assistido. Se o usuário está vendo um filme de ação, o corte do comercial pode ser mais dinâmico. Se é um drama romântico, a trilha sonora e a montagem se ajustam para não quebrar o clima.
Isso é o futuro da publicidade contextual. Menos intrusiva, mais integrada.
E não para por aí. Formatos interativos, onde você pode usar o controle remoto ou o celular (segunda tela) para explorar o produto sem sair do ambiente do filme, estão se tornando realidade.
Aqui retomamos o conceito que discuti no texto sobre o futuro da identidade visual na era da IA: a máquina processa, mas é o humano que sente. Dados sem alma são apenas números. Arte sem dados é apenas hobby. Quando juntamos os dois, temos publicidade moderna.
Por que isso é bom para todo mundo (inclusive para você, consumidor)
No fim das contas, essa elevação da barra beneficia três pontas:
O Público: Que deixa de ser bombardeado por lixo visual e passa a ter experiências mais agradáveis, descobrindo marcas que realmente têm a ver com seu estilo de vida, apresentadas de forma cinematográfica.
As Plataformas: Que mantêm seus assinantes felizes. Ninguém cancela a assinatura porque os anúncios são bons. Cancelam quando a experiência é frustrante. Anúncios de qualidade protegem o modelo de negócio do streaming.
As Marcas: Que voltam a construir valor real, saindo da guerra de preços e entrando na batalha pela preferência e pelo coração do consumidor.
Estamos saindo da era da "poluição publicitária" para a era da "arquitetura de atenção".
O próximo passo para sua marca
Se você chegou até aqui, já entendeu que o jogo mudou. A pergunta que fica é: a sua marca está pronta para a tela grande ou ainda está presa na mentalidade do banner de rodapé?
Não adianta ter o melhor produto do mundo se a sua apresentação parece amadora ao lado de uma produção de Hollywood. O resgate do Brand Building não é luxo, é estratégia pura de crescimento e posicionamento.
Como sempre digo em minhas consultorias e artigos sobre tendências de marketing para o próximo ano, o futuro pertence a quem consegue misturar a precisão da tecnologia com a imprevisibilidade da emoção humana.
Se você sente que sua empresa precisa recalibrar a rota, sair do piloto automático das métricas de vaidade e criar uma presença digital que realmente converse com a audiência de massa e qualificada, talvez seja hora de conversarmos.
A publicidade voltou a ser arte. Não deixe sua marca ser apenas um ruído no fundo da sala.
Fernando Curtti | Especialista em IA, Marketing e SEO.












